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Gabriela Cravo e Canela e… seus comentários!

22 jun

Desde de que ouvi sobre o remake da novela e sobre o centenário de Jorge Amado, fiquei com vontade de escrever um post sobre o assunto.

Mas… vieram antes de mim. De sexta-feira para cá uma série de programas fizeram comparações entre as duas versões, incluindo curiosidades, etc. Ah, e antes teve até a polêmica sobre o Fantástico não ter citado a Sônia Braga (apesar de usar imagens com ela) enquanto falava da nova versão da novela. E é claro que em grande parte destes programas privilegiaram a novela ao invés do livro. No entanto, me deparei com o primeiro Globo Repórter que realmente mostrou algo além de documentários segmentados da BBC.

O programa exibiu informações sobre Jorge Amado, entrevistas com seus filhos, cenas da casa e do museu dedicado a ele. E, o mais novo para mim, mostraram fotos e história de uma suposta real Gabriela, que tenha inspirado o senhor Jorginho. Achei bem interessante como hipótese, já que todo livro é ficção (ou alguma parte dele) e a carapuça às vezes serve a mais de uma pessoa.

 

Aí pesquisando sobre o assunto, pensando mais sobre a comparação da Sônia Braga com a Juliana Paes, acabei encontrando um blog que fala sobre televisão, o Vamos Lembrar. Nele tem um post justamente falando sobre Gabriela, entitulado “A Verdadeira Gabriela”, mostrando recortes de revista com foto e um pouquinho sobre esta senhora, além de curiosidades sobre a versão original da novela e imagens de seu elenco na época e agora.

Mas a grande “curiosidade” contida no post é um comentário que reproduzo aqui:

Hélio Júnior4 de maio de 2012 23:02

Solicitamos a este blogueiro a retirada das fotografias da Sra Lourdes Maron cujo titulo da matéria se intitula a verdadeira Gabriela sob pena de processo judicial por calunia e difamação, alem de uso de imagem sem autorização. Este blog mesmo sem a assinatura autoral de um individuo ( que não o assina ) caso insista em manter tais informações ( nome desta senhora e sua família e fotografia ) sera rastreado através do IP / Origem de conexão. Desde já agradeço.”

Achei meio assustador o comentário, e relendo depois meio absurdo e quase engraçado. Uso de imagem sem autorização? Calúnia e difamação? A imagem em si não é de direito da pessoa, e sim da revista que a publicou, bem como as informações não são de responsabilidade do blogueiro, mas novamente da revista que publicou a matéria. ( Para quem quiser ver o blog o link é este Aqui.)

O que me choca é esta necessidade de exorcizar a imagem de Gabriela. Aliás, é a própria imagem em si que me incomoda. Já ouvi mais uma pessoa falando de Gabriela como a adúltera máxima da trama, e tenho a impressão de que a grande maioria acha que Jorge Amado é só sexo, baixaria e por aí vai. Talvez esta imagem seja reflexo de a todo momento, e em todos os lugares, que vi e ouvi falar sobre o remake em momento algum citarem o livro.

No livro, a Gabriela demora muito para aparecer na trama, e a crítica política e social são muito maiores que o apelo sensual. Enquanto todos os homens da cidade frequentam o bordel principal e mantêm prostitutas particulares, uma mulher é morta por ter um amante. O cacau é a principal fonte de renda local, o que gera grandes disputas de terra, emboscadas, jagunços. As mulheres querem trabalhar; a esquerda política começa a ter visibilidade e ser concreta em suas propostas, não mais apenas sonhadores reclamões. A fé, a religião, o desespero do povo nordestino em relação a chuva. É sobre isso que é o livro.

Gabriela é uma criança, perdida no meio de convenções de uma elite de novos ricos com sede de ares parisiense, envolta de gente que veste quatro camadas de roupa com um sol de 40 ºC. Ela é sensual justamente por ser uma criança, ela brinca, quer ir ao circo, participar do bloco das pastorinhas. Ela é simples, e quase esnoba toda a estrutura vigente, não quer saber de casamento, meia calça, muito menos de sapatos que apertam os pés. Gabriela sabe o que é felicidade, e conhece muito bem o que é não tê-la.

Como não ter orgulho de ser descendente de alguém assim, ou que ao menos tenha inspirado tudo isso? Como? Será que em pleno século XXI seremos censurados como as estudantes do livro? “Este livro/blog/pensamento é impróprio para você/veiculação/publicação”.

Viva Gabriela! Viva Dona Flor! Viva Tieta!

… e fecha o livro.

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